Entendendo a DOR para frequentar mais a CIDADE DO DIVERTIMENTO

VIDEO BOOK: O Resgate de Isabela: uma nova maneira de pensar a dor para crianças e cuidadores
1- SENTIR DOR É NORMAL (pelo menos no início)
Pelo menos no começo, a dor ajuda você a fazer coisas diferentes para não se machucar. Existem muitas situações que a dor ajuda a nos livrar de problemas que nosso cérebro entende que é sério.

Antigamente quando acabava luz em casa as pessoas não usavam celular para iluminar o caminho. Nós usávamos vela! Quando eu era criança resolvi tocar naquela chama atraente! Imediatamente senti uma dor, retirei o braço e aprendi alguma coisa com isso! Aprendi que eu não deveria tocar no fogo, ou pelo menos deveria fazer isso de um jeito diferente.

Já adolescente um dia na escola eu estava jogando futebol quando vi meu pai na arquibancada, fui acenar para ele e levei uma bolada na testa! Ficou vermelho, a dor ficou presente por alguns minutos mas continuei jogando mesmo ainda sentindo meu rosto ardendo. Eu me lembro também que nessa época meu treinador era muito bravo. Sem nenhum gol para comemorar, eu lembro de ter saído da quadra com a mão no olho dizendo "não fiz gol por causa da bolada que não me fez enxergar". Como se isso fosse evitar a bronca que a gente levou!

Esses foram exemplos de dores agudas, ou seja aquela dor que tem a função de nos proteger de alguma possível ameaça. A dor que leva minutos, horas, dias ou poucos semanas para desaparecer. E como qualquer dor pode aumentar e diminuir de acordo com vários fatores. 

E você, pode me contar alguma situação que sentiu dor? Como foi? Quanto tempo levou para você voltar a fazer todas suas atividades?

2- DOR NÃO É A MESMA COISA QUE LESÃO OU MACHUCADO
A dor e o machucado podem acontecer juntos e normalmente chama tanto nossa atenção que é comum  acreditarmos que significam as mesmas coisas. Podemos considerar a dor aguda como um aviso de que algo mais sério como uma lesão pode acontecer. Eu gosto de imaginar a dor e a lesão como amigas que andam juntas algumas vezes, mas andam separadas em muitas outras vezes. 

Veja alguns exemplos de quando a dor existe sem que exista qualquer lesão. 

Quando alguém coloca a mão no fogo e retira rapidamente.
Quando alguém sente uma dor de cabeça e desaparece depois de algumas horas? 
Quando alguém fica muito tempo na mesma posição com as pernas dobradas e tem dificuldade de esticar.
Quando alguém bate o dedo do pé na quina da cama. 

Esses exemplos mostram que a dor existiu, sem a presença de lesão. Da mesma forma que a dor existiu sem lesão nesses exemplos, pode acontecer em muitas outras situações em acreditamos ter nos machucado ao sentir dor. Por exemplo, quando alguém pega uma caixa no chão e sente dor nas costas, quando se sente uma dor no joelho ao descer escadas, entre outras situações.

Portanto, ao sentir uma dor PENSE "aquilo que eu sinto não significa que eu esteja machucado".

3- NA MAIORIA DAS VEZES A DOR DIMINUI SOZINHA
Definitivamente sentir dor não é nada agradável. Tão  desagradável quanto sentir dor, talvez seja um pai ou uma mãe vendo seu filho sentindo dor! Eu sou pai e sei muito bem como é! Quando nosso filho sente dor quereremos fazer qualquer coisa para evitar seu sofrimento. Um beijo para sarar, uma palhaçada para tirar um sorriso ou um chá para acalmar. 

Existem casos ainda de pais que dão medicamentos aos filhos cedo demais e de muito frequentemente quando seus filhos referem dor. Isso pode acontecer comumente em dores de cabeça. 

No entanto, sabemos que a maioria das dores melhora com o TEMPO tomando medicamento ou não. Os pais podem fazer o tempo passar mais rápido (pelo menos subjetivamente) e reduzir o desconforto do momento através de um OLHAR INTERESSADO NÃO AMEAÇADOR. 

Quando não sabemos que o tempo é um ótimo remédio para a maioria das dores comuns do dia a dia, podemos pensar que o alivio aconteceu por causa do medicamento milagroso. Dessa forma passamos essa crença inadequada aos nossos filhos!

As crianças precisam ter a oportunidade de aprender o PODER do TEMPO, de um OLHAR interessado e da DISTRAÇÃO para o alivio da dor aguda. Essas estratégias podem ser valiosas em situações futuras.

4- A CRIANÇA PRECISA SENTIR-SE SEGURA PARA AVISAR SOBRE A DOR
Crianças podem sentir vergonha de dizer que estão com dor. Por isso a ESCUTA INTERESSADA SEM JULGAMENTO de um adulto ou de um amigo é extremamente importante. Além disso, crianças tem uma capacidade muito grande de distração podendo continuar brincando mesmo em situações que precisam de mais atenção. Existem sinais de dor em criança além do relato explicito:

- Isolamento social
- Evitação de atividades
- Alimentação diferente (principalmente nos casos de dor na barriga)
- Expressão facial de desconforto

Dores muito INTENSAS, PERSISTENTES ou que começam a DIFICULTAR as atividades da criança precisam sem dúvida nenhuma de uma investigação médica imediata. É muito importante descartar problemas que precisam de repouso ou podem colocar a vida da criança em risco. As crianças não sabem ainda diferenciar as situações que necessitam de maior cuidado. O adulto tem a tarefa de dar SEGURANÇA e ao mesmo tempo permitir com que a criança desenvolva recursos para que sua dor impacte o menos possível sua vida. 

O profissional da saúde precisa ter experiência ou treinamento em atender crianças porque a maneira de avaliar e tratar é diferente de um adulto. Além disso, profissionais e adultos precisam pensar muito bem O QUE falar para a criança para não gerar preocupação exagerada e comportamentos desvantajosos. Por exemplo, profissionais que recomendam a criança a não fazer educação física por causa da dor podem estar se esquecendo de que essa atividade leva os jovens a desenvolverem sociabilização. Uma vez que o jovem pára de fazer atividade, pode ficar com um problema a mais como solidão e vergonha, por exemplo. 

Crianças e adolescentes precisam ter a SEGURANÇA suficiente para compartilharem suas experiências de dor. OUVIR sem querer ensinar é a poção mágica para entender a dor.

5- O CÉREBRO DECIDE QUANDO VOCÊ VAI SENTIR DOR
O cérebro está recebendo uma quantidade enorme de informações nesse exato momento. Junto a isso tem muitas informações armazenadas que vieram se seus pais e que foram um dia aprendidas. O cérebro decide o que você está experimentando.

Quando alguém pisa em um prego, mensagem de perigo sobe pelos nervos da perna, vai até a medula espinal. Da medula espinal a mensagem pega carona com outros nervos para seguir caminho em direção ao cérebro. O cérebro recebe a mensagem de perigo que veio da medula espinal informando sobre seu pé, mas também recebe a mensagem de perigo vindo dos olhos ao ver sangue. Também dos ouvidos ao escutar alguém gritando "Seu pé está furado! Também da nossa memória ao lembrar de algo que disseram o quanto isso é perigoso. Depois de tudo isso por quê o cérebro não iria avisar você que existe um perigo acontecendo através da dor? Nesse exemplo, o cérebro utilizou essas "dicas" para avisar a pessoa através da dor e gerar o movimento de retirar a perna para se livrar do prego e até falar aquele "aiiiii". O cérebro usa várias áreas para avisar você através da dor da mesma forma que um pianista usa as várias teclas do piano para produzir uma música que dessa vez pode se chamar "sinfonia da dor".

No entanto, existem situações em que o cérebro da prioridade à outras dicas que podem tornar a dor menos intensa ou incomodar menos. Por exemplo, se a pessoa tivesse pisado no prego ao atravessar a rua e tivesse visto um caminhão vindo em sua direção. O cérebro iria deixar a dor para mais tarde! Antes disso, o cérebro precisa fazer você chegar do outro lado da calçada!

O CÉREBRO usa muitas DICAS para construir a dor. Algumas dessas dicas podem aumentar a dor, outras podem reduzir a dor.

6- O QUE ACONTECE QUANDO A DOR CONTINUA EXISTINDO POR MESES OU ANOS? 
Alguns adultos e crianças podem perceber que a dor está demorando mais do que o esperado para passar. Quando a dor continua presente por mais do que 3 meses, chamamos de crônica. As dores mais comuns em crianças que persistem por mais de 3 meses são: dor de cabeça, dor na barriga, dor nas costas, dor nos joelhos. Algumas podem receber nomes estranhos como Síndrome da Dor Complexa Regional (SDCR), Osgood-Schlatter entre outros.

Nesses casos, depois de uma investigação médica detalhada é comum não conseguirmos explicar totalmente a persistência da dor apenas com os achados de exames. Aliás, é muito provável que os exames estejam normais ou com pequenas alterações que não conseguem justificar a dor.

Com os avanços da neurociência, atualmente conseguimos assegurar que na grande maioria dos casos não existe algo sério acontecendo nas estruturas do corpo (órgãos, músculos, articulações). No entanto a dor é sempre REAL, desconfortável e a criança precisa saber o que deve ser feito para melhorar os sintomas.

A ciência descobriu recentemente que é possível continuar sentindo dor sem a presença de problemas nos tecidos e órgãos do corpo. O sistema nervoso formado por milhares de nervos os quais enviam mensagens para o cérebro, pode ficar desregulado mesmo com os tecidos do corpo em ótimas condições. É como o sistema de alarme de uma casa que continua tocando sem a presença de um ladrão.

Eu lembro de ter um brinquedo muito especial. Era um caminhão de bombeiros que tocava uma sirene toda vez que eu batia palma. Um dia a sirene começou a tocar com qualquer barulho do ambiente. Minha mãe e meu pai acharam que o brinquedo estava quebrado. Olharam por baixo, por cima, pelo lado procurando o defeito e não acharam nada. Até que eu descobri um botão que podia fazer a sirene ficar mais sensível ou menos sensível. Dependendo do ajuste desse botão, a sirene podia tocar com um bater de palmas muito forte ou com um assobio fraquinho. O mesmo acontece quando a dor persiste por muito tempo.

No caso da dor crônica os nervos que fazem a sirene do cérebro tocar está desajustada e pode tocar mesmo em situações que não colocam em risco a integridade do corpo. Como no caso de Isabela que começou a sentir dor ao correr com seus amigos de pega-pega ou ao andar de bicicleta. Até mesmo pensamentos ou ao observar situações antigas que causaram dor já é capaz de fazer a sirene quase tocar!

Dor crônica é como a sirene de um caminhão de bombeiros que continua tocando mesmo sem a ameaça de um incêndio.

7- O CÉREBRO PODE USAR DICAS QUE ALIVIAM A DOR  
A "sirene da dor" pode tocar mais auto ou mais baixo. Se o cérebro utilizar dicas que o fazem concluir que o perigo é grande, ele vai fazer a "sirene da dor" tocar mais alto ou fazer a pessoa querer se afastar de atividades que são importantes como brincar, correr e ir para escola. Se o cérebro utilizar dicas que o fazem concluir que o perigo não é tão grande assim, ele vai fazer a "sirene da dor" tocar mais BAIXO ou fazer a pessoa a voltar a fazer as atividades que são importantes para ela.

As dicas utilizadas pelo cérebro podem vir de 6 lugares:

1- Cabeça: seus pensamentos, sua imaginação e a conversa que você tem com você mesmo e muitas vezes ninguém ouve;

2- Olhos: aquilo que você vê acontecendo com seus pais e seus amigos, aquilo que você lê na internet;

3- Ouvidos: aquilo que você escuta de seus amigos, pais, outros adultos;

4- Boca: aquilo que você diz para os outros;

5- Corpo: as coisas do ambiente como um prego por exemplo. Também os movimentos do corpo para fazer exercícios e brincar, por exemplo. O movimento da barriga quando está com fome também entre nesse item;

6- Coração: sentimentos de alegria, tristeza, raiva, saudades, medo.

Conheça como ISABELA percebeu as "dicas" usadas pelo seu cérebro antes e depois de encontra seu amigo VITOR:

Você pode fazer sua lista agora?

8- FAÇA A EXPERIÊNCIA DE MUDAR SUA DOR AGORA  
Escolha UMA ou se quiser DESAFIO, faça as DUAS experiências abaixo.

Experiência 1
Como seria se você pudesse colocar sua dor em uma televisão? Como seria a imagem da sua dor?

Feche os olhos e responda essas perguntas (pode ler primeiro e depois com os olhos fechados imaginar ou pedir para alguém ler para você enquanto você vai imaginando).

Qual cor aparece? Qual é a forma que mais chama sua atenção nessa imagem? Tem textura, qual é? O que mais tem nessa imagem?

Eu não sei se tem som, mas se tivesse qual seria? Qual é o volume? É um som agudo ou mais grave? É um som continuo ou tem pausas? Você poderia imitar o som?

Com os olhos fechados pode repetir tudo que você vê agora?

Experiência 2
Repita tudo que foi feito na experiência 2 e siga os passos a seguir

Depois de representar sua dor com os olhos fechados de forma muito detalhada como na experiência 2 você vai brincar com a imagem e com o som! Seja criativo ou peça para alguém ajudar você como se fosse um produtor de um filme dando dicas do que você pode mudar na imagem.

Eu não sei qual é a primeira coisa que pode começar a mudar? Você pode mudar a cor dos cantos? Pode mudar a cor no centro da imagem? Que cor pode ser mais agradável? Se tiver parada, pode colocar um movimento? Pode diminuir de tamanho a imagem ou quem sabe colocar em outra posição? Agora estou estou interessado em saber sobre o som! Pode mudar o som? Tem pessoas que conseguem afastar a imagem até ficar pequena, você pode fazer isso? Pode notar como o som vai mudando à medida que a imagem fica longe?

Pode me dizer com detalhes como está ficando? Pode fazer a imagem e o som ficarem tão longe ao ponto de sumir?

A parte que eu mais gosto está chegando! Em algum lugar do espaço e eu não sei da onde vai surgir um ponto brilhante. Pode me dizer se este ponto está vindo da direita, da esquerda ou do centro? De cima ou de baixo? Isso mesmo... Esse ponto vai se aproximando cada vez mais até você começar a ver uma imagem agradável. Uma nova imagem! Como é essa imagem? Tem espaço para brincar? Tem grama? Está sol?

Essa é a parte que eu mais gosto! Você consegue entrar nessa imagem agora? Como é estar aí dentro? O que você pode fazer de divertido aí? Como você se sente?
Imagem

Agradecimento 
especial para os apoiadores desse projeto

Apoiadores por financiamento coletivo! Sem vocês esse projeto não existiria!
AMIGOS APOIADORES:
Alexandre Cassolini, Andrea Zupo Maynart de Oliveira, Cristiane Liz Saggal Cassolini, Cristiane Midori Yamauti Saggal, Cristina Yamauti, Daniel Zupo, Erika Yuri Kamitsuji Ferreira, Fernando Yudie Ossada, Gabriela Yukie Yamauti, Hugo Yudi Rizzoli Takeshiro, Jorge Kamitsuji, Jucemara S. L. Alves, Leo Costa, Lucíola Menezes Costa, Magda Mugnol Rocha, Marcia Maria Mugnol, Maria Amelia Amaral Saragiotto, Nilva Massumi Hanzawa Kuniyoshi, Otavio Castanho, Raquel Simoni Pires, Robson Hirata, Rodrigo Petrone, Rogerio Saggal, Veronica Sterzek Lin, Shinji Yamauti, Solange Fecuri, Sophia Akemi Kamitsuji Ferreira, Tânia Regina Parma, Tatiane Ichitani, Valteir Bernardes Borges, Victor Yudji Nakaharada Kokubo, Vivian Mari Inoue, Wanderley Nogueira, William Lin.

EMPRESAS APOIADORAS: 
INSTITUTO I9C TREINAMENTOS
LOJÃO DO BAIXINHO 
PERFUMARIA SUMIRÊ

CONSULTORES
Científicos: Tiê Parma Yamato e Bruno Saragiotto
Literários: Gonçalo Ferreira da Silva e Norival Leme Junior
Ilustração: João Alves da Silva
Narração: Patricia Rizzo
Produção áudio e video: Adolfo Carolino
Autor: Rodrigo Rizzo
Imagem
João Maria

Sobre o autor

Rodrigo Rizzo é pai da Julia e do Thomas e está cheio de sobrinhos especiais como a Clara Morena, o Kaique, a Yasmin, o Kenzo e o Victor.

É mestre em fisioterapia e tem experiência clínica no manejo de pessoas com dor crônica há mais de 15 anos. Atualmente, Rodrigo Rizzo é doutorando pela University of New south Wales - Australia. Tem como interesse entender como potencializar o funcionamento do cérebro para aumentar os benefícios no tratamento da dor.

Rodrigo Rizzo é idealizador do "Mapa da Dor" - Uma nova maneira de pensar a dor. É reconhecido internacionalmente pela sua capacidade de transformar conhecimento complexo sobre a dor em algo compreensível para todos. www.mapadador.com.br